SOBRE

Joseca Yanomami nasceu provavelmente em 1971 no rio Uxi u, um afluente do alto rio Catrimani no estado de Roraima, extremo norte do Brasil. Atualmente vive e trabalha na comunidade Buriti na Terra Indígena Yanomami, Brasil. Sua produção tem como ponto central projeções da cosmologia yanomami em narrativas visuais. Por meio do desenho e da pintura, o artista dá corpo às histórias dos tempos ancestrais e às múltiplas dimensões da terra-floresta yanomami, visível somente aos xamãs. 

Filho de um grande xamã, desde jovem Joseca criava desenhos efêmeros pela floresta e, a partir da relação com não-indígenas, passa a utilizar materiais artísticos em sua produção, apropriando-se desses materiais e, simultaneamente, do conceito ocidental de arte. Dessa forma, a pesquisa do artista tem se aprofundado em projetar e fazer descer as imagens xamânicas (utupë pë) nas superfícies das telas e papéis, nas "peles de imagem" como ele mesmo nomeia. Produção que parte do entendimento yanomami de imagem como algo não representacional, mas real e dotado de agência.


Enraizada na cosmologia de seu povo, sua obra posiciona-se em novo lugar na história da luta yanomami pela defesa de seus direitos e território por meio da arte. Em 2003 Joseca participa de sua primeira exposição, L’Esprit de la Forêt na Fondation Cartier, Paris, França, e começa sua trajetória em exposições nacionais e internacionais. Em 2022, realiza sua primeira individual no Museu de Arte de São Paulo – MASP e em 2024, sua obra é incluída na 60ª Bienal de Veneza, Foreigners Everywhere.

A man with dark hair and tan skin, wearing beaded necklace and colorful bracelets, seen from the side, sitting at a table with markers and papers in front of him, against a rough brick wall.
A man with dark hair and tan skin, wearing beaded necklace and colorful bracelets, seen from the side, sitting at a table with markers and papers in front of him, against a rough brick wall.

A PESQUISA ARTÍSTICA

Para fazer meus desenhos, eu escuto apenas as palavras dos xamãs e dos espíritos xapiri. Quando os xamãs cantam, eu escuto os grandes xamãs, aqueles que sabem muito as palavras dos xapiri. Quando eles falam, quando fazem suas sessões de xamanismo eu escuto e guardo todos os cantos que eles apresentam. Eu pego pra mim, sigo fazendo isso. Eu escuto todos os cantos que eles fazem, quando eles apresentam essas palavras eu escuto e guardo. Guardo todas na minha cabeça. Eu continuo fazendo isso ainda, quando eles cantam durante o xamanismo. E então, depois que eu escuto e guardo bem essas palavras dos xapiri, eu pego as palavras que ele cantou, eu escuto bem as palavras quando ele canta, e então, pego pra mim e fico cantando na minha cabeça. Depois eu durmo, depois de guardar todos esses cantos, eu vou dormir. Mais tarde, depois que o sol se levantou, depois que eu acordo, eu fico ainda pensando muito: "Awei, é assim que eu quero desenhar as palavras dos xapiri. Eu quero desenhar dessa maneira, assim como eles cantaram." Eu deixo tudo bem certo e organizado. Eu separo os cantos uns dos outros. Depois de guardar e lembrar todos aqueles cantos dos xamãs sobre os xapiri, eu os separo. É só depois de fazer assim que eu desenho. Eu não faço os desenhos à toa. Eu não faço desenhos sobre as coisas que eu penso sem razão. Primeiro eu esclareço meus pensamentos. Acordo no meio da noite para ficar pensando. E então, de manhã, eu saio para desenhar. Bem cedo.

Vou desenhá-los bem claramente, corretos. É assim porque eu já desenhei tudo no meu pensamento antes, e então eu os faço claramente, sem titubear. Vou desenhar bem certo aquilo que os espíritos xapiri cantaram. É assim que faço meus desenhos. E eu também faço muitas perguntas aos xamãs. Pergunto para aqueles que são xamãs de verdade, os que falam palavras claras. Eu pergunto: "Como é realmente o espírito do Japu, Naporeri? Me diga como ele é de verdade, eu quero fazer um desenho dele. Já que você é xamã, você sabe! Me fale como eles são.". Então escrevo no papel o que eles me dizem, quando eles me contam. Pergunto para os xamãs sobre outros espíritos também: "Como é o espírito do Jatobá, Arokohiri?". E então eu escrevo. Só depois eu vou desenhá-los. É assim que faço com as palavras dos xamãs sobre os espíritos xapiri. Primeiro eu pergunto para fazer os desenhos. E também escuto quando os xamãs cantam durante o trabalho deles à noite. Quando eles trabalham durante o dia eu também os escuto. E também pergunto para eles. Assim que eu faço. É assim. Por isso que eu faço certo, não erro nada. 

E também sobre as histórias antigas, quando quero fazer desenhos sobre as histórias dos antepassados. Eu sei essas histórias porque eu escutei elas dos meus parentes mais velhos, quando ainda estavam vivos. Eu era bem pequeninho ainda, mas eu os ouvia quando contavam. Quando contavam as histórias dos antepassados, as histórias sobre como os antepassados se transformavam. Eu ouvia quando eles contavam. As histórias dos antepassados que viraram porcos do mato, dos que viraram macaco-aranha. Outros que também se transformaram em tatus. Outros se transformaram no ser maléfico da seca, Omoari. Também sobre aqueles antepassados que foram esfolados pelo espírito do algodão, Xinarumari. E quando eles contavam essas histórias eu guardava na cabeça. Por isso, quando quero fazer esses desenhos, eu só faço porque eu já sei as histórias. Eu ainda sei bem. Eu guardo elas na minha cabeça. Por isso eu ainda sei essas palavras. É assim que faço meus desenhos. Não fico pensando à toa.

Eu já sei o que fazer há muito tempo. Eu gravei essas palavras na minha cabeça, como vocês napë dizem. Eu gravei todas essas palavras e ainda as possuo, por isso eu faço assim. Eu também escuto as palavras das pessoas de outras comunidades. Eu também pego as palavras dos mais velhos que vivem em outras casas. Quando eu vou visitar outras casas, eu também escuto as palavras dos mais velhos de lá. Eu pergunto sobre as histórias de como viviam os antepassados. "Você sabe histórias dos antepassados?", eu pergunto. "Eu sei sim, se você quiser ouvir eu conto". Eu pergunto como os antepassados viviam e, quando eles me contam, eu guardo tudo na minha cabeça. Quando eu visito outras casas e se lá vivem xamãs poderosos, eu também peço para que eles trabalhem. Falo assim: "Faça xamanismo, eu quero ouvir as belas palavras dos espíritos xapiri. Já que você é velho e experiente, quero ouvir suas belas palavras." E quando eu peço assim e eles trabalham, eu guardo tudo o que eles cantam na minha cabeça. Depois eu levo essas palavras de volta para minha casa e vou desenhá-las. É assim que faço. Mas, eu também desenho sobre as coisas que eu aprendi e sei sozinho. Quando eu era pequeno, mais jovem, eu quase me tornei xamã. E nesse tempo eu via os espíritos xapiri. Via muito e sei como são até hoje, então eu os desenho. Quando eu era criança os espíritos xapiri também me olhavam. E por isso eu também os via. Por isso eu os conheço. Eu guardo isso tudo: as histórias dos antepassados, as palavras dos xamãs e aquilo que eu vi quando quase me tornei um xamã. Eu guardo tudo isso ainda. É assim que faço.

Eu também faço os desenhos das coisas que eu vejo e aprendo quando sonho. É assim. Quando eu sonho eu gravo na minha cabeça o que eu vi. Aquilo que vejo nos sonhos eu guardo. Depois eu sonho de novo, e guardo novamente. Quando eu sonho com os xapiri. Nós Yanomami falamos assim, temos duas maneiras de falar sobre os sonhos: mãri e thapi. Quando eu vejo os xapiri no sonho (mãri) eu desenho. Eu gravo para desenhar, são sonhos realmente bonitos. Mas também posso dizer que faço os desenhos dos xapiri em sua forma onírica, que chamamos de xapiri thapi. É assim que faço meus desenhos. Por isso eu faço meus desenhos com sabedoria. Desenho aquilo que eu sonho. Quando eu durmo, eu sonho e desenho o que eu vi nos sonhos, exatamente como são. Eu acordo e penso: “Awei, quero desenhar esse sonho". É assim que faço meus desenhos.

Joseca Yanomami, 2025

BIOGRAFIA

Nos seus primeiros anos de vida, Joseca e sua família vivam longe de qualquer contato com não indígenas, seu pai era um "grande homem" (pata thë) e renomado xamã. Devido ao contato com não indígenas e abertura de um trecho da rodovia Perimetral Norte (BR-210) que cortou toda a parte sul do território yanomami nos anos de 1970, após duas epidemias dizimarem seu grupo em 1973 e 1977, quando sua mãe faleceu de sarampo, sua família se restabeleceu à jusante do rio Mapulaú, um afluente do alto rio Demini. Seu grupo então passou a se estabelecer ali, na casa coletiva de Watorikɨ aos pés da serra do Demini, junto com o líder e xamã Davi Kopenawa, região onde residem até hoje.

Durante sua infância, Joseca era um jovem introvertido e se ocupava em passar longos períodos sozinhos pela floresta, destacando-se de outros jovens yanomami. Nessas incursões solitárias pela floresta, Joseca entrava em contato com a dimensão xamânica dos seres que habitam a terra-floresta yanomami, impulsionadas também pelo seu pai e seus corriqueiros sonhos xamânicos. Joseca criava, então, desenhos efêmeros pela floresta, em folhas verdes de palmeiras, com espinhos ou carvão, na areia das praias e realizando esculturas de animais em madeira. Desde cedo sente em si profunda necessidade de retratar em imagens do visível e do invisível da terra-floresta yanomami (urihi a).

A partir de 1992, com a homologação da Terra Indígena Yanomami e a expulsão parcial dos garimpeiros que haviam invadido o território, acompanhando o contexto de redemocratização do país e a efetivação dos direitos indígenas conquistados com a nova constituição federal, as ações de saúde e educação se tornaram prioritárias nas aldeias yanomami. Em sua comunidade de Watorikɨ, projetos pilotos específicos para os Yanomami foram criados pela Comissão Pró-Yanomami (CCPY), liderados por Bruce Albert, Claudia Andujar, Carlo Zacquini e Davi Kopenawa. A fim de melhorar a situação da saúde dos grupos yanomami, acometida por diversas epidemias nas décadas anteriores, foi preciso formar mais Yanomami como agentes comunitários de saúde, processo que se deu concomitante à alfabetização dos jovens. É nesse período que Joseca tem os primeiros contatos com materiais básicos de desenho, como papel, caneta e lápis.

O período de tranquilidade vivido pelos Yanomami logo após a demarcação possibilitou o surgimento das primeiras experiências de escolarização diferenciada e a demanda pela produção de materiais didáticos. Com a chegada de materiais escolares, e também de desenho, Joseca passou a utilizar papel, lápis e caneta em sua produção, apropriando-se desses materiais até então desconhecidos por ele. Inicialmente direcionada para as escolas, sua produção artística foi incluída em diversos materiais e cartilhas escolares, como o livro Yamakɨ hwërimamouwi thë ã oni: palavras escritas para nos curar, publicado em 1997 pela CCPY, um dos primeiros em língua Yanomami, feito e ilustrado por Joseca e Morzaniel Ɨramari, hoje diretor de cinema.

Nessa época, Joseca fundou e foi professor da primeira escola yanomami de seu grupo, incentivando crianças no aprendizado da escrita e no estudo de línguas. Sendo também um dos primeiros Yanomami a trabalhar na área da saúde atendendo sua comunidade, cargo que atua até os dias de hoje.

A partir dos anos 2000 sua produção artística começou a ser conhecida para fora de sua comunidade. Em 2002, Joseca e Davi Kopenawa receberam em sua comunidade um encontro entre xamãs yanomami e artistas de diferentes países. Como uma experiência intercultural de intercâmbio estético e filosófico, o encontro promovido na comunidade de Watorikɨ, por Bruce Albert e Hervé Chandès, então diretor geral da Fondation Cartier pour l’art contemporain, colocou em relação artistas não indígenas e xamãs para que pudessem construir, através da arte, reflexões estéticas que dialogassem com o pensamento xamânico yanomami.

Entre os convidados estavam Adriana Varejão, Raymond Depardon, Gary Hill, Wolfgang Staehle e Stephen Vitiello, além de outros artistas que, posteriormente, participaram da exposição L’Esprit de la Forêt, realizada pela Fondation Cartier pour l'art contemporain em 2003 em Paris, apresentando pela primeira vez obras de Joseca. A efervescência artística que tomou conta de sua comunidade naquele momento foi fundamental para que Joseca se apropriasse definitivamente do conceito de arte como forma de expressar sua visão do universo yanomami, além de abrir janelas para que a arte yanomami despontasse na cena da arte contemporânea. Foi nesse encontro que Joseca descobriu o termo ocidental "arte", passando a assinar seus desenhos como Joseca Artista Yanomami.

No ano seguinte, em 2004, é criada a Hutukara Associação Yanomami (HAY), marco fundamental para a defesa dos direitos indígenas e também da consolidação do protagonismo yanomami na luta política no âmbito nacional e internacional. Com Davi Kopenawa como presidente da associação desde sua fundação, a HAY é uma das mais atuantes organizações indígenas no Brasil e a principal representante dos povos habitantes da Terra Indígena Yanomami. Entre suas diversas iniciativas, como as de proteção territorial, manejo etnoambiental e saúde, a Hutukara também tem acompanhado a trajetória dos artistas yanomami e os projetos de exposições, reforçando sempre o viés político da circulação das artes yanomami.

Desde a primeira exposição com os artistas yanomami, a Fondation Cartier Pour L’art Contemporain, através do encontro intelectual entre Hervé Chandès e Bruce Albert, foi uma importante parceira para a circulação da arte yanomami, incluindo trabalhos de Joseca, Ehuana Yaira e André Taniki em diversas mostras, como Histoires de Voir, Show and Tell (2012), Nous Les Arbres (2019), Les Vivants (2022) e Siamo Foresta (2023). Joseca protagonizou um importante marco para a Arte Indígena Contemporânea (AIC), movimento encabeçado por Jaider Esbell, em 2022, com a exposição Joseca Yanomami: Nossa Terra-Floresta, a primeira individual de um artista indígena no MASP, um dos mais relevantes museus de arte contemporânea no Brasil. Todos os 93 desenhos apresentados na ocasião hoje compõem o acervo do museu. O ano seguinte, 2023, marca também a publicação do novo livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, O Espírito da Floresta, trazendo um compilado de textos e ensaios sobre ecologia e a cosmovisão yanomami, mas com especial destaque para os encontros por meio das artes. Em 2024 Joseca é convidado por Adriano Pedrosa para participar da 60ª Bienal de Veneza, consolidando sua carreira e reconhecimento artístico de sua produção.

Hoje, a obra de Joseca é referência para a arte contemporânea e a arte indígena contemporânea, presente em importantes acervos como Fondation Cartier pour l’art contemporain, Museu de Arte de São Paulo - MASP, e Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM.

Texto: Daniel Jabra, 2026